A principal autoridade reguladora da União Europeia (UE) disse ontem que o bloco poderá banir os swaps de defaults de crédito (CDS) "puramente especulativos", depois que a primeira-ministra da Alemanha Angela Merkel pediu uma tomada de posição sobre os negócios com derivativos para impedir uma repetição da crise financeira que atingiu a Grécia.
O presidente da Comissão Europeia José Barroso disse ontem que a região que congrega 27 países vai "examinar atentamente a relevância da proibição dos negócios puramente especulativos com os swaps de defaults de crédito".
Angela Merkel disse, antes do encontro do primeiro-ministro grego George Papandreou com o presidente dos Estados Unidos Barack Obama, marcado para ontem em Washington, que a UE precisa assumir a liderança na contenção dos derivativos.
"Somos de opinião que uma implementação rápida de medidas precisa ocorrer na área dos CDS", disse a primeira ministra alemã a jornalistas em Luxemburgo. Mencionando as "especulações contra os países da região do euro", ela pediu a implementação de novas regras "o mais rapidamente possível".
Líderes europeus estão aumentando as pressões por uma regulamentação global dos derivativos, em meio à crise grega. A Comissão Europeia, o braço executivo da UE, vai propor também a criação de um emprestador de última instância para ajudar países membros em dificuldades, como a Grécia, uma proposta que está dividendo os líderes da região.
Papandreou disse em um pronunciamento em Washington, na segunda-feira, que "especuladores sem princípios" ameaçam provocar uma nova crise financeira mundial e afirmou que pressionou Obama para que ele apoie os esforços da UE para conter a especulação.
"A Europa e a América precisar dizer ´basta´ a esses especuladores que dão valor apenas aos retornos imediatos, com uma desconsideração total às consequências para o sistema econômico", disse Papandreou.
A Federal Financial Supervisory Authority (BaFin), autoridade reguladora do mercado financeiro da Alemanha, disse que os dados do mercado não dão suporte às afirmações de que os swaps foram usados para especular contra os bônus gregos.
Dados fornecidos pela Depositary Trust & Clearing Corporation dos EUA não mostram que novas posições abertas foram formadas e também não indicam uma "ação especulativa maciça", segundo informou na segunda-feira a BaFin em um comunicado.
Tim Brunne, estrategista de crédito da UniCredit em Munique, disse que culpar os derivativos pela crise da dívida grega é "confundir causa com efeito", e que impedir os negócios com esses títulos poderá levar a "anomalias nos riscos financeiros".
O custo dos swaps com bônus gregos atingiram um recorde porque o mercado teme que o governo terá dificuldades para pagar mais de € 20 bilhões (US$ 27 bilhões) em dívidas que vencem até o fim de maio.
O prêmio de risco que os investidores estão exigindo para comprar os bônus gregos de 10 anos, sobre os títulos de dívida alemães comparáveis, também aumentou, provocando um salto nos custos dos empréstimos no país.
O spread está no momento em 305 pontos-base, mais que o dobro do nível registrado no começo de novembro.
"O mercado de CDS ficou muito forte e conduz os preços nos mercados de bônus", disse ontem a jornalistas em Frankfurt Axel Weber, presidente do Bundesbank, membro do conselho diretivo do Banco Central Europeu (BCE).
"Nem todo mundo que compra proteção tem uma exposição latente. Trata-se de um mercado pouco transparente e precisamos ter uma transparência muito maior."
Adair Turner, presidente da Financial Services Authority do Reino Unido, disse na semana passada a um comitê parlamentar que os CDS, e os chamados "naked CDS" em particular (quando um investidor compra proteção para um ativo que não tem), precisam ser examinados pelos estrategistas econômicos.
"Os naked CDS não têm nenhum propósito útil e são perigosos", diz Richard Portes, professor de economia da London Business School. "Eles não ajudam significativamente na liquidez ou determinação dos preços. Eles não são análogos às vendas a descoberto de ações porque eles afetam o custo dos financiamentos."
Barroso disse que vai pressionar os líderes do G-20, na reunião marcada para junho, para que eles contenham os swaps. Ele também disse que a criação de um Fundo Monetário Europeu para ajudar países membros em dificuldades seria uma proposta de longo prazo que poderá exigir mudanças nas regras da UE. Na segunda-feira, Angela Merkel indicou que uma proposta para criar um emprestador de última instância poderia estar pronta até junho.
Fonte: Valor Econômico -Rainer Buergin e Ben Moshinsky/Bloomberg - 10/03/10