Com a abertura do mercado de cartões, a participação das credenciadoras no setor deixará de ser definida pelo consumidor, quando escolhe que bandeira vai usar na hora de pagar suas compras, e passará a ser ditada pelos lojistas. Nesse cenário, uma das principais fontes de receitas das empresas, o aluguel de "point of sales" (POS) - as maquininhas que capturam transações com cartões de crédito e débito nos estabelecimentos comerciais -, tende a sofrer recuo significativo e há quem calcule um encolhimento da ordem de 20% em três anos, como a analista Mariana Taddeo, da Link Investimentos. Para se ter uma ideia, no ano passado, Cielo e Redecard faturaram, juntas, R$ 1,814 bilhão só com a locação de POS.
Em compensação, uma outra linha de negócios continuará a trazer bons frutos: a antecipação de recebíveis. Levantamento da Boanerges & Cia mostra que o adiantamento rendeu ao setor R$ 1,549 bilhão no ano passado. Para 2010, as projeções são de que essas receitas esbarrem nos R$ 2 bilhões.
Com o fim da exclusividade entre Cielo e a bandeira Visa, a partir de 1º de julho, e o compartilhamento de terminais pelos lojistas, a bola volta ao centro do campo e um novo jogo no segmento de credenciamento será iniciado, diz Edson Santos, da Co-Link, que mapeou o tamanho das redes líderes. "O POS poderá ser o ponto nevrálgico de ganho ou perda de 'market share'."
Considerando-se a entrada de Santander/GetNet nesse mercado, ele prevê um acréscimo de 250 mil maquininhas nos próximos dois anos, com a base total - excluindo-se as malhas da Amex e da Hipercard -, chegando a 2,867 milhões de equipamentos. Só que ele estima que o Brasil tenha hoje 883 mil estabelecimentos que efetivamente usam o POS para captura de transações. Da conta total ele exclui os cerca de 250 mil lojistas com mais de um "check out", como supermercados, drogarias e lojas de departamentos, que usam sistemas de automação comercial, e também as varejistas que chegam à mortalidade antes de completar um ano de atividade.
No novo mercado, uma das hipóteses que traça é que cada estabelecimento manterá, na média, 1,5 equipamento, fazendo com que a demanda chegue a 1,325 milhão de terminais. Num cenário menos conservador, em que cada lojista mantivesse pelo menos dois POS, seriam necessários 1,766 milhão de maquinetas para atender todo o varejo. Em qualquer dos cenários haveria um excesso de oferta.
No fim de 2009, a Redecard informava ter 987 mil equipamentos instalados, enquanto a Cielo 1,6 milhão, sendo 1,2 milhão ativos.
Num primeiro momento, as varejistas tendem a trabalhar com as duas principais credenciadoras, até para não ficarem na mão caso uma das redes falhe, diz Mariana Taddeo, da Link. Num horizonte mais longo, porém, a maior competitividade no setor, com entrada de novos players, tende a exercer pressão sobre os preços de aluguel. Ela calcula que, num intervalo de três anos, as receitas de Cielo e Redecard possam cair cerca de 20%, a R$ 1,4 bilhão.
Uma eventual sobra de terminais decorrente da maior competição deve ser redistribuída em localidades ainda não plenamente atendidas pelos meios eletrônicos de pagamentos, pondera o diretor de Relações com Investidores da CSU CardSystem, Décio Burd. "Mas os preços vão cair, o lojista vai escolher o melhor pacote entre o valor do aluguel, a taxa de desconto e a taxa de antecipação de recebíveis."
Como no Brasil o mercado de cartões ainda está em estágio inicial, com a moeda de plástico representando apenas 23% do consumo privado - em comparação aos 50% nos Estados Unidos ou 60% no Canadá, Austrália e Reino Unido -, as maquinetas eventualmente não mantidas pelos lojistas atendidos pela Redecard vão ser realocadas para novos credenciados e não deve haver queda nas receitas com aluguel, diz a diretora de Relações com Investidores da empresa, Viviane Behar. "No ano passado batemos o recorde, com o credenciamento de 340 mil lojistas e em 2010 o ritmo segue forte, sempre vai ter novas geografias e novos segmentos que passarão a usar o meio eletrônico de pagamento."
Já para a linha de antecipação de recebíveis, na qual a Redecard lidera, tendo feito pré-pagamentos equivalentes a R$ 23 bilhões em 2009, Viviane vê oportunidade de crescimento tão logo possa capturar Visa. "Tudo que passar pela nossa rede pode ser antecipado."
Por enquanto, a empresa não divulga suas projeções de crescimento, mas a previsão de Boanerges Ramos Freire, da Boanerges & Cia é de que as credenciadoras antecipem aos lojistas neste ano 23,4% dos valores capturados com cartões de crédito, o que representaria R$ 73,291 bilhões. As receitas antes de impostos chegariam a R$ 1,971 bilhão. "Na essência é um risco de crédito praticamente zero em comparação à linha bancária tradicional, porque as credenciadoras estão apenas adiantando um pagamento que fariam de qualquer jeito."
Apesar de considerar que, ao longo do tempo, os bancos participem mais ativamente do negócio de antecipação de recebíveis, com a redução dos spreads como um todo, por ora a vantagem das credenciadoras nesse negócio está assegurada, diz Mariana, da Link. "Como não pagam IOF sobre essas operações, os lojistas encontram na Redecard e na Cielo condições mais competitivas do que teriam num empréstimo bancário." Para Redecard, ela ainda prevê uma expansão anual média de 5% dessas receitas, para a casa dos R$ 690 milhões até 2013, enquanto para Cielo, que ainda tem pequena participação nesse segmento, as receitas dobrariam ano a ano até esbarrarem nos R$ 600 milhões em 2012, perdendo fôlego a partir de 2013.
Já os bancos, que emprestam em cima de fluxos de recebíveis futuros, tendem a se retrair enquanto o controle dessas garantias não estiver unificado - feito por uma central de custódia, por exemplo. Até aqui, as credenciadoras prestavam o serviço de trava bancária às instituições financeiras, assegurando que os pagamentos referentes a determinado fluxo sejam depositados na conta do banco. O mecanismo perderá, porém, efetividade com o fim da exclusividade, quando os lojistas passam a ter livre trânsito para mudar de rede.
Fonte: Valor Econômico/Adriana Cotias - 10/03/10