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Déficit em transações correntes aumenta e preocupa governo

Enviado em 08/05/2012 18:32:02

Pela primeira vez em 11 anos o déficit nas transações correntes do Brasil não deve ser coberto pela entrada de investimento estrangeiro direto (IED). Mais que isso: se cumpridas as estimativas feitas pelo Banco Central (BC) para este ano, o déficit nas transações correntes será US$ 15 bilhões superior à entrada dos investimentos estrangeiros - na última vez que houve esse descompasso, em 2001, a diferença foi pequena, de apenas US$ 700 milhões.
Os resultados podem ser ainda piores caso as estimativas mais recentes da equipe econômica para ingresso de investimentos estrangeiros neste ano se realizem, enquanto o mercado trabalha com um déficit na conta corrente ainda maior que o previsto pelo BC.
Oficialmente, o governo Dilma Rousseff trabalha com um déficit de US$ 65 bilhões nas transações correntes neste ano (22,6% superior ao esperado para 2011), e com a entrada de US$ 50 bilhões na forma de investimento estrangeiro direto. Mas os economistas do governo já vêm uma entrada menor de investimentos, na casa de US$ 45 bilhões.
Ao mesmo tempo, parte dos analistas do mercado já trabalha com um déficit na conta corrente superior a US$ 70 bilhões. Principal indicador do balanço de pagamentos, as transações correntes registram todas as operações, em dólares, com o exterior. O saldo é obtido após o resultado da balança comercial (exportações menos importações), da balança de serviços (fretes e seguros) e as transferências unilaterais.
O temor da equipe econômica é que esse seja o único sinal dissonante num momento em que os bons indicadores macroeconômicos brasileiros estão em evidência no mundo, diante do elevado endividamento público dos Estados Unidos e dos países da União Europeia. Já outros emergentes, como Turquia e Índia, contam com déficits nas transações correntes oscilando entre 7% e 8% do Produto Interno Bruto (PIB).
Caso as projeções de um déficit nas transações correntes de US$ 65 bilhões a US$ 70 bilhões se confirmem, na avaliação dos especialistas, o endividamento atingirá um nível superior a 2,5% do PIB, podendo chegar a 3% do PIB, porque, ao mesmo tempo, o avanço do PIB dificilmente será forte (entre 4,5% e 5%) como espera o governo Dilma.
"Há um cenário negativo, que ganha muita força com a contínua letargia dos europeus em resolver sua grave crise interna, que inclui menos entrada de investimentos estrangeiros no país", diz Fernando Rocha, economista e sócio da JGP Gestão de Recursos. O cenário trabalhado por Rocha inclui um déficit de US$ 71,5 bilhões nas transações correntes e uma entrada de US$ 50 bilhões como IED. Esse déficit, no entanto, seria quase todo coberto pelo ingresso de US$ 15 bilhões sob a forma de capital de curto prazo e outros US$ 5 bilhões que devem chegar para aplicações em títulos públicos, além, é claro, dos US$ 50 bilhões que Rocha espera sob IED.
"Toda essa entrada de capital, de US$ 20 bilhões, pode ser menor, caso a crise externa se agrave", diz Rocha, para quem esse "cenário negativo" ganha força. No limite, o déficit poderá ser coberto pela venda de dólares das reservas internacionais (em US$ 352 bilhões, segundo o Banco Central). Esse déficit pode também resultar em uma desvalorização do real, o que estimularia as exportações, e, assim, a maior entrada de dólares. "Há uma probabilidade real de ter uma pressão sobre o câmbio, pela primeira vez em anos", diz Rocha, para quem, no entanto, o cenário mais realista, por enquanto, não é este.
Duas fontes da equipe econômica avaliam que a trajetória do saldo nas transações correntes deixa o governo em alerta. "Não se trata de algo preocupante, no curto prazo", diz um deles, "mas de um incômodo desnecessário", afirma. Resultado de uma maior saída de dólares do que ingresso, o déficit nas transações correntes é um antigo fantasma dos economistas do governo.
O problema geralmente está relacionado com a dificuldade de financiamento desse buraco, se ele se mantiver por muito tempo e de forma crescente. No passado, o governo brasileiro foi obrigado a manter a taxa de juro muito elevada para atrair capitais e, dessa forma, financiar o déficit em conta corrente.
De acordo com Constantin Jancso, economista-sênior do HSBC, um déficit nas transações correntes próximo a 3% do PIB deve ser alcançado neste ano ou no próximo, mas que não deve preocupar. "Há espaço para uma deterioração da conta corrente sem que isso cause transtornos ao mercado. Os indicadores brasileiros, como as elevadas reservas internacionais, estão muito bons", diz Jancso.
Fonte: Valor Econômico/ João Villaverde - 09/01/2012
 


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